terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Amantes

 

“Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair”
Chico Buarque

Deitado,  mãos  com  dedos  entrelaçados  sob  a  cabeça.  Os  olhos  mirando  a luminária, o teto. Sei lá. Acha que, em verdade, não mira nada, absorto, aposta, em reviver  o  que  entre os  dois, mais  uma  vez,  aconteceu. Conferiu,  no  banheiro,  o sabonete  e  o creme  dental — já  se  habituara  a  com  ela  encontrar-se  sem  usar perfume algum, o que, não sabia ele, mais a excitava. Tudo em ordem. Quis deixar na  boca  o  cheiro  da porra  de E.,  para  que  J.,  ao  beijá-la, sentisse-o  no  palato. E assim fê-la. Vestiu-se ainda no banheiro. Repôs os anéis e o colar já no quarto. Ele quis  levantar-se. Disse-lhe para  continuar  na  cama;  que preferia  sair  e  ter  como imagem ele deitado, nu.
Assim ficou. Ouviu o destrancar da porta, e, em seguida, sendo fechada. Levantou-se. Dirigiu-se ao  banheiro.  As  mãos  sobre  a  parede  e  a água  a  despejar-se sobejamente  sobre  o  seu corpo. As  lembranças  levaram-no  à  ereção. Definitivamente, não se sentia, apesar do prazer que G. lhe proporcionava, feliz. O fato de G., após encontrarem-se, retornar ao marido o incomodava. Quantas vezes lhe pedira para abandoná-lo?  Oh, pobre coitado.

sábado, 28 de novembro de 2009

BLONDIE

DE ONDE VEM
Um ponto no infinito. É o que a objetiva capta quando a cortina se abre. Quando avança lentamente uma imagem trêmula surge no canto. Sob um sol causticante. Um só corpo é o que parece ser. Quando se fecha aí se vê. Não é o que se pode chamar exatamente de marcha lenta. Movem-se por inércia. Não são as patas que removem os grãos é que as impulsionam. Os joelhos já não dobram mais.

PARA ONDE VAI
Eles avançam. No desfiladeiro se deixam arrastar sob o olhar atento de um caramujo do deserto que enterra a cabeça na areia aos primeiros gritos do coiote. Tão descarnados. Tão sedentos. Difícil dizer quem é homem quem é montaria.

QUAL O SEU NOME
Desviada para o lado esquerdo a cabeça baixa pela força gravitacional abandonou o movimento do pêndulo. O chapéu mais ainda. Não impedem que o sol siga abrindo crateras. O charuto no canto da boca o barulho do vento na noite passada apagou.

NINGUÉM JAMAIS SOUBE
Ainda assim ele segue. As rédeas seguram a mão esquerda. Mas não se engane quem vê a outra dormindo sobre o coldre. Está atenta. E formigando.

Vamos. Faça o meu dia.

domingo, 15 de novembro de 2009

JOÃOZINHO NA TERCEIRA IDADE

Com caramelos de chocolate ele a atrai, dizendo: vem bebê, ver o pica-pau-de-cabeça-vermelha no colo do vô. Ela, toda contente, corre em direção do velho que antes de acomodá-la, diz: vou tirar a calcinha, muito calor. Em seguida, ele sintoniza o canal no qual passa o desenho animado preferido da netinha. Enquanto ela se lambuza, ele ajusta a sintonia fina. Momentos depois, ela, toda inocente, se vira e, ameaçando cair no choro, diz: vô...

sábado, 24 de outubro de 2009

CÔNJUGES

“¿Pó de cacos de vidro na comida dele?”
É tiro e queda.
“¿E depois, casamos?”
Não antes do seu luto fechado e muita lágrima em público.
“¿E depois?”
Aí eu, a grana e você... Vidão!

domingo, 11 de outubro de 2009

A ENCOMENDA

“Atirador, quando compra vingança alheia
Tem que ter veneno na veia
Tem que saber andar num chão de navalha
Atirador tarda mas não falha”
Atirador, por Lula Queiroga

Sentado em frente ao homem de branco, viu a mão pálida aproximar-se, arrastando-se no tampo da mesa, pressionando uma foto. Afastou-se rápida, e sumiu por instantes. Uma gaveta abriu-se. A mão pálida voltou segurando um envelope. E ouviu o homem dizer “mate o canalha, e apenas o canalha.” Pegou a foto, e mirou-a, mentalizando o rosto do homem morto; sim, já morto. A menos que o envelope não contivesse o valor do contrato. Virou a foto, os endereço impressos: o do trabalho e o de casa. Largou a foto. No envelope, o dinheiro acertado. Não disse palavra. Apenas se levantou e encaminhou-se para a saída. Ouviu ainda o homem de branco dizer que queria no jornal a notícia da morte do canalha. E pensou: “tá lá, doutor.”

* * *

Seus olhos miravam o cano da arma voltado para si. Antes recebera uma coronhada entre os olhos, que lhe deixou aturdido, com o corpo atirado ao chão. Tonto, tentou levantar. Não conseguiu se pôr de pé. Mas ajoelhou-se. E seus olhos miravam o cano da arma voltado para si. Olhou para o lado e viu G., inerte. Tentou extrair de seu olhar a traição que sempre esperou. Mas nada lhe foi revelado. Ela estava, definitivamente, aflita. Ou era boa atriz. Voltou-se para o cano da arma. Segurando a arma, um estranho. Corpanzil, musculoso, olhar fixo em si. Mirou no dedo a afagar o gatilho. Voltou-se para o cano da arma. Não lhe parecia que tremia. Mas sentiu líquido a queimar-lhe as coxas, molhando suas calças. O homem em fração de segundos virou-se para G. e seu olhar dizia-lhe para conter o grito que anunciava, e não cumplicidade entre eles, que lhe justificaria tamanha violência. Quis falar, mas som algum emitiu. Não sabia a razão de ter sido agredido com tanto vigor. Mirou novamente o rosto do homem. Expressão alguma denunciada, a não ser a sua frieza. O certo, a impressão que teve, é que nunca o viu. Seu olhar, mirando o homem com a arma, buscava uma explicação. Mas o homem mostrava-se indiferente. Ouviu G. balbuciando “por favor, não faça isto. Pegue o que quiser, mas não faça isto.” O homem voltou-se para G. Pareceu-lhe ainda ausente qualquer cumplicidade. O homem estava disposto apenas a fundar o terror: afinal, em nenhum momento mencionou os dólares, ou as jóias, ou o Audi estacionado. Em verdade, não mencionara nada. Disse ao homem que não tocasse em G. O homem aquiesceu, encolhendo os ombros. Agradeceu-lhe. Sabia que G. não seria tocada. Na firmeza do homem em agredir-lhe, sentiu que poderia nele confiar. Ouviu o estampido e sentiu queimar a fronte.

* * *

Surpreendeu-se ao abrir a porta, projetando-se contra a parede. Um homem invadiu o seu apartamento, com uma espingarda na mão. O barulho chamou a atenção de R., que lhe acudiu. Foi, barrado, porém, por uma coronhada entre os olhos. Caído, R. tentou levantar,em vão. Não entendeu nada do que ocorria. R. olhou-a como se procurasse ajuda. Tentou gritar, mas o olhar do homem a impediu. A arma sempre mirada para R. Se tanto, e o que se lembra, disse ao homem que não fizesse mais qualquer violência, que levasse o que quisesse do apartamento. O homem a fitou, e logo entendeu que não era um assaltante. Imaginou, a princípio, que pretendia violentá-la. Mas viu o homem dar de ombros ao pedido de R. de que não a molestasse. Então o pior aconteceu-lhe: o tiro. O rosto de R. desfigurou em pólvora e sangue. Em seguida, o corpo abruptamente desmoronou sobre o piso enxadrezado, como se abatido uma peça qualquer. Sentia o cheiro da pólvora ainda quando se debruçou sobre o corpo. O sangue tingia sua blusa branca. Entre dedos, ao segurar a cabeça sem vida, miolos. Berrou o nome do morto, entre soluços, entremeando com palavras ininteligíveis. Voltou-se, sem muito se afastar do corpo, para pedir socorro, mas apenas viu as pernas do assassino sumir pela porta. Gritou por ajuda. Nem os passos do assassino mais eram ouvidos. Estava só, com o corpo. Estava sozinha. Correu ao telefone ligou para 198. Depois, sentada no chão, pernas dobradas, abraçadas, ficou a mirar o corpo, e se imaginou sozinha para sempre. A noite chegava com o seu luto.

* * *

Sucumbiu o desgraçado com uma coronhada, ao vir socorrer a cunhã, que afastara de sua frente. “O que foi, G.?”, pronunciou-se o desgraçado. Seus passos interrompidos com a coronhada, que o projetou para trás, até que colou a bunda no chão. Tentou levantar, mas o cano da escopeta o impediu. Virou-se para lado, para onde estava a cunhã. Voltou-se para o filho da puta, que olhou para cunhã como se buscasse auxílio. Seu olhar cortou o grito da cunhã. Ela ainda balbuciou que não fizesse aquilo, que levasse o que quisesse. Olhou-a como se dissesse que apenas queria a vida do filho da puta. Virou-se novamente para filho da puta, que, trêmulo, pedira que não fodesse a cunha. Apertou o gatilho, atingindo em cheio o filho da puta, que foi projetado para trás. Virou-se e dirigiu-se à porta pensando que seria bom foder aquela piranha. Mas não seria ela que o faria descumprir um contrato.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

MARGARIDAS VERMELHAS

Vim assim que soube. Amigo de infância. Logo que cheguei, aquele constrangimento. Aproximei-me para vê-lo mais de perto. Fui interrompido por um acesso de tosse. Não conseguia parar. Meus olhos lacrimejavam, faltou-me o fôlego. Passada a crise, percebi que as velhas senhoras tinham parado de rezar o terço. À minha volta, todos me olhavam fixamente, com ar de censura ou de advertência. Ou era de comiseração? Não esperei a resposta. Sai dali imediatamente. De fininho e envergonhado. E adivinha o que estou fazendo agora, aqui do lado de fora que está mais ventilado e de onde a muito custo posso identificar a quantas trezenas vão de ave-marias? Prometeu parar. Eu também, diversas vezes. O máximo que consegui, numa delas, três meses. Por esse tempo eu ficava, como se costuma dizer, fumando nas calças. Carcinoma bronco-pulmonar. Quando soube, para melhorar a estima, ainda quis fumar um, o infeliz. Na manhã de hoje, quando acordou, contou-me sua mulher, estranhamente não sofreu. Olhou pro firmamento e fez um comentário. Nesse momento algumas nuvens tingiam de negro o azul do céu. Preferia não saber, foram suas últimas palavras.

Foi por causa dele que comecei, ainda no ginasial. Por pouco não me livrei. Tinha dificuldade, engolia muita fumaça. Ele insistiu e o fez com um argumento infalível. Ajuda a conquistar uma garota. Quando a gente está sem assunto. Serve pra quebrar o gelo, distrair. Enquanto traga, vai pensando no que falar.

Mas minha paixão inicial foi mesmo pelas embalagens. Quando criança, lá pelos oito ou dez, tinha um vizinho que gostava de Minister. Feito para o homem que sabe o que quer. Certa vez ele me deu um maço vazio. Comecei minha coleção. A gente transformava em notas. Isso depois de um cuidadoso trabalho. O jogo era desfazer a embalagem sem rasgar ou danificar. Primeiro descolava. Depois dobrava as laterais em direção à parte interna, mais ao menos na largura do dedo mindinho. Em seguida, com o polegar, e a mesma paciência de mãe ao passar a camisa de cambraia de pai, pressionava em ambos os lados para vincar bem. Ao final, dobrava ao meio, como se faz com as cédulas. Na bolsa de apostas entre os meninos da rua, Minister valia mais que Hollywood, cinco vezes uma Continental com filtro. A de menor valor era a do Gaivota. Índice de rejeição altíssimo, porque era o mais barato àquela época e não tinha filtro. A mais rara e valiosa era a carteira de Cônsul, mentolado e meio doce, um pouco enjoativo. Tinha uma vantagem. Bom para namorar, falar de perto, diziam os acima de meu tope. E era mesmo. Antes de conhecer, quando eu queria beijar, depois de umas tragadas, eu sempre chupava bombons piper. Com o Cônsul não havia com que se preocupar, podia beijar sem medo.

Saudades daquele tempo, quando tudo era muito inocente e romântico. Assim como no cinema. Filme em preto em branco tinha que ter fumaça. Sem um entre os dedos nunca haveria uma mulher como Gilda. E nem como Rita. E aquele olhar oblíquo, impetuoso, de femme fatale da Lauren Bacall pro Bogart? O instante entre o riscar e o acender. Impagável. Nunca esqueci.

Os tempos são outros. Não existe mais aquele glamour. A cada dia o cerco se fecha ainda mais. Pra onde você se vira tem uma placa de espaço livre. Tem dias que eu me sinto como um cão vira-lata, ninguém quer por perto. Acho que ele também se sentia assim. Pertencemos a uma raça em extinção. Eu e o cinzeiro. Outro dia, numa festinha, rodei a casa toda à procura de um. Não encontrei. Tive que me virar com um copo descartável.

Quanto à tosse? Está sob controle. Não sou do tipo que é facilmente surpreendido. Não dou moleza pro azar. Faço visitas regulares aos médicos. Já a investigaram. Enfisema intersticial, uma bobagem. É certo – e esse detalhe eu omiti – que às vezes vem acompanhada de alguns coágulos avermelhados. Minha mulher diz que são de sangue. Eu digo que são margaridas que meu organismo não consegue digerir e são expulsas. É a palavra dela contra a minha. E enquanto isso, pra organizar as idéias, vou fumando. Enquanto ainda é permitido fazê-lo em alto-mar.

sábado, 5 de setembro de 2009

BORGES

penetrei intricados labirintos
cruzei infinitas câmaras
e antes que minhas retinas mourejassem
fiz concessões
de que me envergonhei depois
e
não me perdi

na saída
vi um jardim de tulipas negras
um rio circular
em cujas águas purifiquei o corpo
quando emergi e me pus em terra firme
desfiz-me em grãos de areia
tornei-me infinitesimal
ainda assim
senti frio

fui varrido pelo tempo
busquei abrigo
numa das mil e uma noites
[imaginei que ali encontraria o sentido de tudo]
aqueci-me
mas aí veio a febre
numa delas
sonhei
que dormia como um justo
nos braços de Sherazade

toquei com o dedo a lâmina do espelho
vi vários de mim
multiplicados
sem fim
como naquele jogo que inventastes
sonhos tigres punhais

hoje são teus olhos
[Deus irônico!
engolidos pelo breu da noite]
guias opacos
que me arrastam
como a tua sombra
pelos corredores da biblioteca hexagonal

eu li [tu dissestes]
não há nada que é
ou que será
que [eu] já não tenha sido

agora sei do outro
[que é] o mesmo
ser Borges
duplo de si mesmo

eu sei você vai saber